“Na natureza, as mandalas podem ser vistas para onde quer que olhemos. O formato em caracol de uma concha, as pétalas sobrepostas de uma rosa, os anéis de crescimento de um tronco de árvore, os padrões formados pelas folhas desenhadas contra o céu [...]. Percebemo-nos como um fio da teia da vida e, paradoxalmente, isso nos proporciona uma experiência da unidade. Sabemos que somos tanto a teia quanto o tecelão. [...]” (Tenzin-Dolma, 2007)
Na prática
No meu consultório e, acredito que no
da maioria dos terapeutas, passam muitos pacientes com quadros regressivos. Eles
são resistentes e muitas vezes estão em crise, demandando muita paciência e um
manejo muito específico, para além a interpretação tradicional. A psicanálise,
pelo seu foco na transferência e no contato humano, está apta a tratar estes
casos, mas ainda assim são permeados de muito sofrimento, dada a densidade e profundidade
psíquica destes pacientes. Muitas vezes me peguei observando a fala destes pacientes
e pensando se eu não poderia lhes “mostrar” visualmente o que eu via dentro
deles para que eles pudessem entender o seu processo. Seria bom se assim eu
pudesse fazer, pois então este paciente olharia o que saiu de dentro dele, entenderia
e colocaria de volta no lugar, mas já com outra sensação a respeito, mais leve
e mais entendível. Impossível minha fantasia, é claro. Não que já não façamos
isso de forma verbal e interpretativa, recurso que muitas vezes não surte o
efeito esperado. Mas para estes pacientes mais regressivos, o concreto lhes
cairia muito melhor, pois suas questões são, na maioria das vezes, pré-verbais,
pré-edípicas, narcísicas, com muitas somatizações e o pensamento costuma ser
mais concreto do que simbólico.
O trabalho clínico com mandalas
terapêuticas pode ser uma alternativa ao “verbal”, trazendo à clínica
psicanalítica um recurso concreto que transita em áreas profundas do psiquismo
e traz à tona conteúdos reprimidos, com um trânsito delicado por partes profundas do psiquismo, tornando mais gentil e rápido um tratamento que costuma
ser longo e cheio de percalços, para além dos casos de neuroses.Para trabalhar com mandalas deve-se
fazer o movimento de se libertar de um setting
já conhecido e seguro, para se aventurar em algo um tanto diferente ou ao menos
se abrir para pensar a respeito desta experiência, pois precisamos nos repensar o tempo
todo. E não lembro isso sem motivo, já que trago um tema que pretende misturar
uma técnica junguiana com a clínica freudiana, fazendo talvez as pazes destes
dois senhores. Faço aqui, então, uma adaptação das mandalas à teoria e técnica
psicanalítica, o que não é difícil dentro de referenciais de Winnicott e Bion.
E, tentando mais uma vez buscar apoio externo para esta empreitada, lembro que
Winnicott (1994) já dizia
que, de tempos em tempos, é necessário que reavaliemos os princípios das
técnicas psicanalíticas. Também Bion fala do seu “gênio” ou “místico”, ou aquele que traz
o novo e desmantela o antigo dentro de grupos que já estão estabelecidos e
estruturados. Ele falava de si próprio provavelmente, mas assevera o quanto a
interação de institutos psicanalíticos com esta pessoa que traz novidades é necessária
para nos mantermos em expansão.
Rosana Ferreira é publicitária; psicanalista; especializada em Psicoterapia Breve, Psicologia Transpessoal, Mandalas terapêuticas e Biopsicologia. Atividades: Docência, Orientação científica, Análise clínica e didática, Supervisão, Consultoria em clínicas e organizações. E-mail: rosanaferreiramah@hotmail.com.br