segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O uso das Mandalas




“Na natureza, as mandalas podem ser vistas para onde quer que olhemos. O formato em caracol de uma concha, as pétalas sobrepostas de uma rosa, os anéis de crescimento de um tronco de árvore, os padrões formados pelas folhas desenhadas contra o céu [...]. Percebemo-nos como um fio da teia da vida e, paradoxalmente, isso nos proporciona uma experiência da unidade. Sabemos que somos tanto a teia quanto o tecelão. [...]” (Tenzin-Dolma, 2007)


Na prática

No meu consultório e, acredito que no da maioria dos terapeutas, passam muitos pacientes com quadros regressivos. Eles são resistentes e muitas vezes estão em crise, demandando muita paciência e um manejo muito específico, para além a interpretação tradicional. A psicanálise, pelo seu foco na transferência e no contato humano, está apta a tratar estes casos, mas ainda assim são permeados de muito sofrimento, dada a densidade e profundidade psíquica destes pacientes. Muitas vezes me peguei observando a fala destes pacientes e pensando se eu não poderia lhes “mostrar” visualmente o que eu via dentro deles para que eles pudessem entender o seu processo. Seria bom se assim eu pudesse fazer, pois então este paciente olharia o que saiu de dentro dele, entenderia e colocaria de volta no lugar, mas já com outra sensação a respeito, mais leve e mais entendível. Impossível minha fantasia, é claro. Não que já não façamos isso de forma verbal e interpretativa, recurso que muitas vezes não surte o efeito esperado. Mas para estes pacientes mais regressivos, o concreto lhes cairia muito melhor, pois suas questões são, na maioria das vezes, pré-verbais, pré-edípicas, narcísicas, com muitas somatizações e o pensamento costuma ser mais concreto do que simbólico.
O trabalho clínico com mandalas terapêuticas pode ser uma alternativa ao “verbal”, trazendo à clínica psicanalítica um recurso concreto que transita em áreas profundas do psiquismo e traz à tona conteúdos reprimidos, com um trânsito delicado por partes profundas do psiquismo, tornando mais gentil e rápido um tratamento que costuma ser longo e cheio de percalços, para além dos casos de neuroses.Para trabalhar com mandalas deve-se fazer o movimento de se libertar de um setting já conhecido e seguro, para se aventurar em algo um tanto diferente ou ao menos se abrir para pensar a respeito desta experiência, pois precisamos nos repensar o tempo todo. E não lembro isso sem motivo, já que trago um tema que pretende misturar uma técnica junguiana com a clínica freudiana, fazendo talvez as pazes destes dois senhores. Faço aqui, então, uma adaptação das mandalas à teoria e técnica psicanalítica, o que não é difícil dentro de referenciais de Winnicott e Bion. E, tentando mais uma vez buscar apoio externo para esta empreitada, lembro que Winnicott (1994) já dizia que, de tempos em tempos, é necessário que reavaliemos os princípios das técnicas psicanalíticas. Também Bion fala do seu “gênio” ou “místico”, ou aquele que traz o novo e desmantela o antigo dentro de grupos que já estão estabelecidos e estruturados. Ele falava de si próprio provavelmente, mas assevera o quanto a interação de institutos psicanalíticos com esta pessoa que traz novidades é necessária para nos mantermos em expansão.







Rosana Ferreira é publicitária; psicanalista; especializada em Psicoterapia Breve, Psicologia Transpessoal, Mandalas terapêuticas e Biopsicologia. Atividades: Docência, Orientação científica, Análise clínica e didática, Supervisão, Consultoria em clínicas e organizações. E-mail: rosanaferreiramah@hotmail.com.br








 [R1]Não gosto deste


 [R2]Freud nunca se referiu a mandalas, mas à arte e ao fazer arte.